RIO DAS FLORES
RIO DAS FLORES (Miguel Sousa Tavares, Companhia das Letras) Faz algum tempo que li. Creio que foi no Carnaval deste ano. Mas, apesar da distância, tenho a certeza que foi desses livros que grudam as mãos e vidram os olhos. Não sei como definir, mas creio que um bom caminho é dizer que é a estória de uma família. Mais precisamente: de um herói virtuoso e de seu irmão, não tão virtuoso assim. Diogo e Pedro Ribera Flores. Filhos de uma tradicional famíla portuguesa, dona de uma herdade, a Herdade de Valmonte. Um é devoto das causas certas (especialmente as políticas); o outro, não. Um é o marido dedicado; o outro é libertino (amoral, até). Um é delicado; o outro é bruto (violento, mesmo). A angústia do herói e sua dificuldade em viver no Portugal de Salazar, leva-o a vir ao Brasil. A secura do irmão leva-o à guerra (civil) alheia, na Espanha. E é aí que a estória, que já é interessante, fica ainda melhor. Porque se mistura com a História. Porque revela bem como os homens (no masculino, não no sentido de humanidade) são diferentes. O que leva homens nascidos do mesmo ventre, criados pelo mesmo pai, na mesma fazenda, a serem tão distintos, a cultivarem valores tão diversos, essa uma boa reflexão trazida pela obra. O romance é sobre essa aventura existencial, essa coisa sem bússola que é a vida. O autor narra com maestria. Suas descrições transportam o leitor para a cena narrada. Sua fluência faz da alta literatura algo que se acompanha com prazer. É, em uma definição fácil, um romance histórico sobre os anos 30. Um baita romance histórico, capaz de explicar para leigos a âmbiência política e social portuguesa e brasileira daquela época. No fundo, porém, é mais que isso. É a estória de como um tempo pode moldar os homens e como os caráteres são peculiares a cada um. Cada um deles. Cada um de nós. É isso.
Escrito por José Rollemberg às 13h16
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